

Considerações para a Quaresma

Neste tempo de Quaresma que se aproxima, é necessário, com maior vigor, deixar-se tocar pela necessidade de compreender melhor as vias do espírito, que exigem modo característico de trabalho.
A imitação, o exemplo, o testemunho são atitudes humanas que possuem significado especial na tarefa da aprendizagem. Bons exemplos, testemunhas autênticas são auxilio precioso no cultivo da disposição necessária para a aprendizagem dos caminhos do Espírito.
No caminho do Espírito é importante encontrar um bom mestre. Há um dito oriental que diz o seguinte: ‘queres aprender rapidamente? Gaste, sem receio, tempo, procurando um excelente mestre’. Encontramos, certamente, ótimos mestres em vários campos do saber científico e tecnológico, das artes e dos esportes. Mas, como encontrar homens e mulheres capazes de nos conduzir pelas vias do espírito?
Quando abrimos as Sagradas Escrituras, nos é dito que o próprio Deus, Ele mesmo em pessoa, o Espírito Santo, nos ensina todas as coisas! A Sagrada Escritura apresenta a grande boa vontade de Deus de nos ensinar.
No trabalho da aprendizagem, é importante um bom mestre; mas também é decisivo o volume de trabalho. Assim, é possível nos familiarizarmos com o mestre e sua matéria. É necessário ser familiar, íntimo com o mestre e sua matéria.
Para obter um doutorado, para adquirir a habilidade esportiva, para aprender a profissão de alta tecnologia, gastam-se anos a fio de intenso trabalho. Imaginemos tamanha dedicação para aproximar-se do mistério de Deus, para ter intimidade com Ele, de tal sorte que Ele nos revele Seus segredos, ensinando-nos tudo acerca de todas as coisas!
Certamente percebemos que, quanto mais a dedicação se torna forte e assumida num trabalho de engajamento para valer, tanto mais a experiência se torna única e singular. Então, em assim sendo singular, percebemos o que quer dizer habilidade pessoal.
O grande pensador Martin Buber relata a seguinte história: “Submeteram ao Rabi Mendel à seguinte questão: As Escrituras (Êxodo, 36,5-6) relatam que Moisés, ao lhe contarem que o povo trazia oferendas demais para a construção do Tabernáculo, mandou ordenar no acampamento que ninguém mais trabalhasse no Santuário. Qual é o nexo disso? Pois se Moisés precisava apenas ordenar que não se trouxessem mais oferendas?!
Ele explicou: É sabido que aqueles artesãos eram grandes santos e com o seu trabalho produziam santos resultados. Quando um deles batia com o martelo na bigorna e outro cravava o machado na madeira, o eco ressoava nos corações de todo o povo que os ouvia e o sagrado anseio os incitava a trazer mais do que o necessário. Por isso mandou Moisés que os artesãos parassem a sua faina.
O corpo a corpo da percussão da martelada de cada homem e de cada mulher, de cada santo que se empenha pelos caminhos do espírito, é o corpo do Encontro, isto é, a pessoa, ela mesma, na imediatez da doação do encontro com Deus. O que há de mais comunitário e social, o que há de mais uni-versal que tal singularidade?
Durante este tempo da Quaresma que se aproxima, somos todos exortados a nos empenhar mais vigorosamente nos caminhos do Espírito. Pois, “é para a liberdade que Cristo nos chama”!
+ Jaime Spengler
Arcebispo Metropolitano
Publicado originalmente em http://arquidiocesepoa.org.br/pa.asp?catego=2&exibir=187